Nós somos as células regenerativas do nosso planeta - uma conversa com Fê Cortez, Carol Piccin e Fernanda Paes Leme na Casa Vogue Experience.

Para regenerar precisamos começar em casa, mas principalmente dento das nossas cabeças. Precisamos começar regenerando o nosso modelo mental.

IMG_20181109_114454065.jpg

A Estela da Casa Vogue abre a conversa sobre esse tema tão importante com uma fala direta e reta: Sustentabilidade não é mais ser o chato do rolê! Desde agosto deste ano estamos em débito com o nosso planeta!

Fê Cortez, do Menos Um Lixo, arremata: imitamos o modelo americano, onde o consumo move tudo e a lógica do descarte predomina, mas se todos vivessem como eles, precisaríamos de 12 planetas. É INSUSTENTÁVEL!

Por isso é fundamental repensar a predominância do tema da reciclagem quando falamos de sustentabilidade. No Brasil, reciclamos só 3% dos nossos resíduos. Claro, é possível chegar ao nível de São Francisco, onde 90% dos resíduos nunca vão parar em aterros e a compostagem industrial chega a quase 100%. Mas é hora de olhar para o que vem antes.

 

Como decidimos o que compramos?

Por que queremos ter o "look do dia" das celebridades digitais se a indústria da moda polui 20% das águas do planeta? Isso diz muito sobre a nossa necessidade de aceitação – continua Cortez – sobre querer parecer cool para o outro. Também isso nós copiamos dos americanos!

Então precisamos regenerar primeiro a nossa mentalidade!

 

A regeneração somos nós.

Não basta reciclar. Reciclar é ciclar de novo e aquele material volta com menos valor, além de não poder ser reciclado infinitamente (somente o alumínio e o vidro fogem a essa regra). Nós temos que ser as células regenerativas do nosso planeta ­– diz a Carol Piccin, da Matéria Lab.

Fê Cortez lembra: se não mudarmos nosso modelo de consumo, em 2050 teremos mais plástico do que peixes no mar e os oceanos são responsáveis por 50% do oxigênio que precisamos para viver. Metade na nossa vida depende deles! Portanto não estamos só em débito com o planeta, estamos em débito conosco mesmos. Precisamos pensar em políticas públicas, claro, mas precisamos lembrar da nossa natureza. Somos compostos de 80% de água e estamos detonando nossas águas. Faz sentido isso?! O índice de depressão no mundo é o maior de todos os tempos. Trabalhamos no que não gostamos para poder comprar coisas que vão nos matar por questões ambientais. Não. Não faz sentido nenhum!!

Regenerar é repensar todo esse modelo, começando com nossos próprios valores.

Esse é o R mais importante!

 

Regenerar, como é isso mesmo?

A palavra regenerar vem da biologia – explica Carol – quando a gente se machuca, a gente consegue regenerar aquela região. Se temos essa capacidade no nosso corpo, podemos regenerar o planeta.

E o modelo mental vai mudando quando a gente olha de forma consciente para cada decisão de consumo: deixar de pintar unha, mudar a pasta de dente, repensar os produtos para o cabelo, usar outro material para reformar a casa. Porque isso tudo o que vemos no lixão são marcas, é o que eu compro: minha roupa, meu tijolo, tudo está lá.

E a gente precisa se relacionar com tudo isso! (mais um R!)

Ainda temos essa ideia da economia linear, extrai, produz, distribui, consome e descarta. Isso é muito burro. Há muitas formas inteligentes de reduzir o resíduo e fazer escolhas de menor impacto. Só falando de casas, já que estamos na Casa Vogue: tinta de terra, fibra de coco que é um resíduo da agricultura, pode ser usado para acústica, para revestimento de mobiliário, dá até para fazer eco couro com essa fibra. E vamos testando, temos que ser arrojados para trabalhar com os materiais naturais. Pastilha de macieira, semente de açaí, capim dourado. Usar resinas vegetais ou invés das derivadas de petróleo é uma grande saída.

A Fê Cortez levanta um ponto importante: olha a oportunidade do Brasil ser vanguarda nesses materiais de origem natural!

linear circular (circular futures).jpg

 

E como fecha esse assunto, gente??

O papel difícil ficou com a Fê Paes Leme, mas ela quase não conseguiu. Emocionada, contou de sua experiência com o programa Desengaveta na GNT, que começou inspirado no bazar de roupas usadas que ela promove em benefício de instituições ligadas ao combate do câncer no Rio de Janeiro. E sabe qual foi a inspiração para tudo isso? Ela ia se mudar percebeu que tinha nada menos do que 80 calças jeans.

IMG_20181109_113037688.jpg

Ela respira fundo antes de contar essa história. O principal as lágrimas já tinham contado. Numa sala estava cheia de mulheres, ficou claro: a gente pensa com o coração. Por isso mesmo, as primeiras células regenerativas do planeta, com certeza, seremos nós, mulheres.