40% do nosso lixo é orgânico e poderia voltar para terra. E a gente faz o quê?

A gente joga no lixo comum.

Isso mesmo. E esse desperdício custa caro e fede. Ele sobrecarrega o transporte de lixo e os aterros sanitários (e a gente paga por tudo isso com os nossos impostos). Além disso, os restos orgânicos geram aquela "aguinha" que vai escorrendo pelos caminhões de coleta de lixo e lança aquele cheiro desagradável por aí.  A terra nos dá e a gente não devolve do jeito certo. Resíduo não é lixo, nem os restos de alimento.

 foto: portal do biogás

foto: portal do biogás

 

O que fazer? Compostar!

É uma técnica mais antiga do que andar pra frente, coisa que nossas avós faziam no quintal. Compostar é permitir que o resíduo orgânico se degrade com a ajuda de minhocas ou micro-organismos, e se transforme novamente em humus e chorume, dois grandes nutrientes para a terra.

Mas dá pra fazer isso na cidade, no apartamento? Dá sim! E tem cada vez mais soluções. Além de compostar, é possível reaproveitar o resíduo orgânico através de um biodigestor, que pode inclusive gerar gás para ser aproveitado na cozinha.

Bora entender! Durante a Virada Cultura 2018, o GT de Compostagem da ABRAPs (Associação Brasileira de Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável) organizou uma roda de conversa sobre esse assunto, mediada pela Luciana Caran, da Rede Mottai. Nós estivemos por lá.

O espírito da coisa...

é compostar os restos de alimentos e resíduos orgânicos no mesmo lugar onde são gerados. Isso evita o transporte desse resíduo tão sensível e reduz a sobrecarga dos aterros. Descentralizar é a palavra!

Em todo lugar, em qualquer lugar

Por exemplo, em casa, mesmo em um apartamento. Já existem soluções como a composteira Humi que tem o tamanho de um frigobar mais ou menos e cabe na lavanderia. Tem cheiro? Não. Tem mosca? Não. O design foi criado a partir do Projeto Composta São Paulo, realizado em 2014 pela Morada da Floresta em parceria com a prefeitura de São Paulo, em que mais de 2000 famílias compostaram em casa. Nós já testamos a Humi e super funciona.

O chorume e o composto você pode doar para amigos, colocar na sua horta ou levar para uma horta urbana.

E os restaurantes? Também dá para compostar, mas é preciso seguir as normas da COVISA para que a composteira não fique próxima da área de manipulação dos alimentos. Outra opção são os biodigestores, que exigem menos cuidado na manipulação e podem processar grandes quantidades.

Podia ser mais fácil, mas...

Segundo o Cláudio Spínola, da Morada da Floresta, uma das dificuldades para construir composteiras em escolas, condomínios e praças é uma resolução (a 102) que exige que todas as composteiras sejam impermeabilizadas. As que recebem até 100 kg por dia não precisam de licença da prefeitura, mas a necessidade de impermeabilizar complica para muita gente. Segundo ele, isso não seria necessário para os volumes menores. Mesmo assim, tem gente fazendo acontecer, como o pessoal da Vila Jataí.

E para os grandes geradores, tem solução?

Tem sim. Os chamados biodigestores, chegam a processar até 500 kgs de resíduo de alimento por dia e geram biofertilizante líquido. Podem ser instalados em indústrias, hotéis e supermercados, conta o Eduardo Prates, da Ecocircuito. Esses equipamentos são oferecidos em sistema de leasing, ou seja, não precisam ser comprados pelo gerador do resíduo.

E para o cocô do cachorro, para o nosso... Rola?

Rola sim. Soluções como o Homebiogas , apresentada pelo Leandro Toledano, processam de tudo! Uma curiosidade sobre esse sistema é o formato. Ele funciona como um vaca: você coloca o alimento, ou seja, o resíduo orgânico, inclusive cocô, na "boca" da máquina e o que sai é gás (sim, para aproveitar na cozinha!) e também biofertilizante, como se fosse o cocô da vaca. E o homebiogas foi inspirado na própria! O sistema de biodigestão foi criado em Israel para comunidades isoladas e está totalmente de acordo com o tratamento descentralizado dos resíduos orgânicos, na melhor filosofia do gerou, tratou! Poderá ajudar muitas comunidades carentes e eles estão buscando viabilizar via microcrédito.

Segundo a lei... nada disso estaria acontecendo.

Ou seja, a lei diz que o orgânico já não deveria ir para o aterro, porém, na prática,  os grandes geradores contratam empresas para encaminhar o resíduo orgânico e adivinha onde ele acaba? Lá mesmo, nos aterros, que são cada vez mais distantes e muitas vezes próximos de áreas de mananciais e APAS (áreas de proteção ambiental).

Então nosso chamado é: vamos causar!

Aqui e agora, começando onde você está! E não estamos falando só da sua casa, mas também do seu bairro, daquela praça onde poderia haver uma horta ou uma composteira. Além disso, precisamos influenciar as nossas cidades e cobrar dos nossos representantes, para retornar à natureza o que é dela e portanto, nosso. Afinal, resíduo não é lixo!