O que seu lixo diria sobre você?

 Foto de Ben Neale

Foto de Ben Neale

Dentro e fora não existe, o que descartamos está sempre ao lado.

A lixeira de casa cheia; pedaços de madeira, de móveis e de coisas abandonadas pelas ruas; as garrafas que nadam no rio Pinheiros; o catador separando papel, lata e vidro; a dança do vento com a sacolinha vazia de mercado; cascas, frutas, verduras e restos de cana são levados pela água depois que a feira acaba; o odor do rio Tamanduateí...

A maioria passa apática, no piloto automático, alheia ao que pode incomodar, isenta de responsabilidade. Olhos acostumados, como se tivessem ficado muito tempo no escuro – se consigo ver assim, pra quê acender a luz? –, passam neutros por aquelas cenas (ou sequer as veem, presos que estão em seus celulares). Narizes se irritam, são cada vez mais rebeldes e demoram a se habituar aos odores da cidade, mas, com o tempo, também encontram alternativas para se livrar. Ouvidos tapados com fones para escapar dos zumbidos. A boca coloca “pra dentro” do corpo o alimento, mas não fala de lixo.

Porque lixo é tabu.

Porque o que “jogamos fora” nos revela e nos acusa de várias formas.

“Jogamos fora” no depósito da invisibilidade ilusória.

O mesmo lugar que reservamos para não ter contato com nossos incômodos, com nosso desperdício de tempo, de relações, de vida. 

Mas uma hora o ralo entope, o rio alaga e tudo que estava fora nos invade. Bem do nosso lado. A lata da invisibilidade ilusória transborda e nos lembra que estamos dentro do mesmo mundo.

Deixar de lado ou estar ao lado é uma questão de escolha.

Artigo Casa Causa, por Carolina Messias, dos Narradores afetivos – escritores garimpando conteúdos com sentido.

*Este artigo é resultado da (des)cobertura afetiva do Fórum Municipal Lixo Zero 2018. Os trechos foram inspirados e parafraseados de falas ouvidas nos painéis 3 (Logística Reversa), 4 (Reciclagem e Compostagem) e 5 (Comunicação de Impacto), sobretudo as seguintes falas de Daniela Leite, do Comida Invisível (“o que era belo, real, vai dando espaço ao invisível”; “quem sabe o que está jogando fora?”; “quando me conecto com meu lixo, começo a entender todos os meus desperdícios de tempo, de espaço, de relações”; “a partir do meu descarte, eu gero a escassez do outro”; “aquilo que não é lixo, não pode ir pro lixo”; “não tem fora. Tudo o que faço gera impacto para o planeta.”; “Chegará o dia em que uma simples cenoura provocará uma revolução.”).