Casa Causa faz gestão de resíduos na Virada Sustentável São Paulo 2019

 A implementação da separação e destinação correta de materiais recicláveis, compostáveis e rejeitos foi desafiadora, mas bem-sucedida. Entenda a metodologia desenvolvida pela Casa Causa.

 Se mesmo quando você dá uma festa em sua casa para poucos amigos, sinalizando a separação dos resíduos, tem sempre alguém que joga comida em cima das latas e mistura tudo...imagine em um evento para milhares de pessoas, em locais públicos?

Gerir os resíduos do parque Ibirapuera, parque Biacica e Unibes Cultural na Virada Sustentável SP 2019 foi o desafio proposto pela organização ao contratar a Casa Causa.

 A estratégia implementada pelas gestoras Flávia Cunha e Luciana Annunziata foi a de separar e destinar corretamente as três frações de resíduo: recicláveis, compostáveis e rejeitos. Esses últimos são “o que não tem jeito”; não são compostáveis, biodegradáveis nem recicláveis. Restos de balões de borracha, plástico filme, fraldas e papel alumínio, entram nessa categoria.

 O único destino dos rejeitos é, portanto, o aterro sanitário. E é aí que está o desafio maior: produzir a menor quantidade de rejeito possível. A proposta da Casa Causa é sempre atingir a meta Lixo Zero, conceito criado pela Zero Waste International Alliance (ZWIA); que visa encaminhar para aterros sanitários menos de 10% de todos os resíduos gerados em um evento.

 O planejamento começa meses antes, com a definição do tipo do evento, previsão de público e de quanto será gerado de lixo. Daí vem a aplicação dos R’s da sustentabilidade, conceito que rege os trabalhos da Casa Causa: materiais que podemos RECUSAR (como plásticos descartáveis), REDUZIR (banners, durex, sacos de lixo, por exemplo), REUTILIZAR (materiais usados em outros eventos) e o que podemos, finalmente, RECICLAR.

 A estratégia segue com o treinamento dos expositores, a delimitação dos locais de separação dos resíduos, e a logística de transporte para o devido escoamento. Depois, começa a produção da comunicação visual para que o público possa enxergar e participar da proposta. Uniformização devida e capacitação da equipe contratada e mãos à obra. 

Cinco empresas parceiras fizeram parte da empreitada, que empregou 28 trabalhadores diretos: para os recicláveis, a cooperativa Rainha da Reciclagem, os catadores do Pimp My Carroça e seu aplicativo Cataki. Para os compostáveis, a Compostando – que recolhe o material orgânico e o transforma em abubo – armazenado nos sacos da Oeko, feitos de bioplásticos compostáveis, que abrigam os restos de alimento e depois se deterioram na terra. Os rejeitos foram encaminhados pelo serviço público da prefeitura de São Paulo. 

 Os resultados foram surpreendentes, dentro das condições que tinham:

 

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“Foi um trabalho árduo, mas bem-sucedido e de grande aprendizado. Só no Ibirapuera foram gerados 90 quilos de material orgânico que foram para a compostagem, e somente 17% de todo o resíduo gerado foi rejeito, o que já nos deixa bem perto da meta dos 10%. Consideramos esse resultado superpositivo”, comemora Flávia Cunha, que também é embaixadora do Instituto Lixo Zero Brasil, filiado ao ZWIA.

  Agora, imagine se na festa em sua casa, você se programa para reduzir a quantidade de lixo e só usar produtos compostáveis ou reaproveitáveis, mas chega uma visita com centenas de pratinhos e garfinhos descartáveis?

 “Dificulta muito quando chegam atores não engajados no processo”, explica Luciana. Ela se refere aos donos de barracas de comida ou cafeterias que não participam do planejamento prévio e acabam contribuindo para o aumento dos rejeitos.

Na Unibes Cultural, por exemplo, alguns desses problemas estiveram presentes e as estratégias de melhoria serão agora apontadas.

 Compostagem em eventos: solução ainda pouco viável

As sócias Casa Causa enfatizam a compostagem como grande aliada na gestão dos resíduos. A prática não só devolve para a natureza o que veio dela, como também evita que os restos de alimentos contaminem os recicláveis.

Só em sua atuação na Virada Sustentável, a Casa Causa deixou de enviar para aterros quase 100kg de resíduos orgânicos que vão agora virar adubo e nutrir hortas urbanas pela cidade.

“Muitos organizadores de eventos ainda acham complicado compostar, pelo medo do cheiro, de moscas e ideias erroneamente associadas à compostagem. A gente garante: se fizer direito, dá tudo certo”, diz Flávia. Segundo ela, é cada vez mais comum as pessoas se incomodarem com restos de comida contaminando os recicláveis nos eventos. “São pessoas mais exigentes que começam a questionar as marcas em relação à preservação ambiental”.

Agora, imagina se todos os eventos da nossa cidade fizessem o mesmo? E se todos foodtrucks compostassem?
Deixaríamos de mandar para os aterros milhões de toneladas de resíduos.

 Mais que geração de impacto: deixar um legado

 Outro foco de melhoria das empreendedoras é a de capacitação dos catadores e agentes ambientais. Eles precisam ter a noção exata de como separar os diferentes tipos de resíduos, além e ganhar desenvoltura para falar com o público. O resultado vai ser uma melhora na separação e uma maior proximidade entre o público e esses profissionais.

 “Não dá mais para olhar para os eventos como uma atividade que gera impacto, mas não gera legado. Os grandes geradores precisam investir no ciclo todo, desde a redução dos resíduos, até o pagamento e capacitação dos catadores (e não só permitir que levem os materiais para vender posteriormente). É preciso gerar legado, mudar a consciência, fazer a integração entre todos os atores do processo, ter inclusão social”, arremata Luciana.  

Segundo André Palhano, criador da Virada Cultural, "são poucos os festivais que acordaram para o fato de que uma gestão de impacto bem realizada não tem a ver com ganhar menos ou assumir uma "bandeira" ecológica, mas sim com mitigação de seus próprios riscos e com a conquista da simpatia do público. É simplesmente fazer o que é certo".

Essa perspectiva é totalmente coerente com aquela defendida por Antonis Mavropoulos, presidente da ISWA - International Solid Waste Association , com o termo Wasteless Future, usado para definir uma sociedade com reaproveitamento completo do lixo. Caminhar nessa direção não é opcional: se cada gerador não assumir sua responsabilidade, em 2050 o mundo entrará em colapso, produzindo três vezes mais lixo do que hoje. Concretizar uma visão positiva para o futuro dos resíduos é algo muito plausível e comprovado pelas ações da Casa Causa.

 “Quantas pessoas passaram pelos locais da Virada onde atuamos? Se todas elas aprenderam algo sobre reciclagem e compostagem, já é um grande resultado”, comemora Cunha.